O
DIA EM QUE UM GALO ACORDOU A ZONA SUL
-
Assim não dá! (reclamava o vizinho de cima)
-
Eu não aguento mais! ( o vizinho do lado)
-
Não se pode dormir com essa cantoria!
-
Um dia ainda faço uma canja desse galo!
Os
moradores do bairro nobre fizeram uma reunião e encaminharam um ofício ao
administrador da região. Foi assim que surgiu a infeliz idéia:
-
Vamos colocar em votação!
-
Mas como em votação? (retrucava o administrador.
-
Um plebiscito para decidir se o galo fica ou não fica. (disse um bigodudo com
cara de classe média decadente).
Eu
agora me sentia um réu, um verdadeiro galo-quase-homem, satisfazendo as
vontades e os caprichos dos humanos (humanos?). É... me pegaram para bode, bode
não, galo expiatório, aonde a consciência pesada do homem iria tranquilizar-se
com a minha saída. O homem tem complexo de galo, vive em poleiros, fechados em
sua prisão interior.
Ser
um galo que por força do destino, foi cair numa promoção de uma grande loja da
cidade, quando ainda era um simples pintinho, pensam que sou privilegiado, mas
nunca senti um pedaço de chão aonde as galinhas e galos normais brincam e ciscam.
Um dia ouvi falar que os da minha espécie adoravam uma minhoquinha, tive uma
sensação de vômito. Fui criado dentro dos padrões de anormalidade humana e hoje
me desprezam, como desprezam os outros humanos deitados nas calçadas.
-
Podemos resolver o problema, (dizia uma representante de uma tal sociedade
protetora dos animais) é só arrumar uma caixa de papelão grande, deixar o galo
lá dentro e só tirá-lo a tarde. Então ele cantaria sem acordar ninguém.
Pronto,
fui condenado, os meus instintos foram condicionados a uma caixa de papelão...
-
Não, isso, não! Ele vai ficar triste e sozinho... (essa é a minha dona, uma
menina de 10 anos, muito inteligente).
-
Que isso, minha filha, galo não tem sentimentos.
Outra
vez me veio a sensação de estar me tornando um humano....
A
votação parecia interminável, faixas e cartazes agitavam o movimento. Algumas
faixas diziam: “QUEREMOS OUVIR O CANTAR DO GALO!”, outras “FORA O GALO, VIVA A
CANJA!”.
Um
político fez um discurso explicando porque um cidadão deveria ter seu sono
garantido e iria levar a proposta para o Congresso Nacional.
Fui
defendido por alguns naturalistas, mas as crianças militaram a meu favor com
mais garra, saíram em passeata, pararam o trânsito da Av. Nossa Senhora de
Copacabana.
Depois
de um dia inteiro de agitação chegaram ao final da votação, enfim, a conclusão
que eu deveria ficar. Já estava cansado e me preparava psicologicamente
para o pior....
Agora
olhando da janela, vejo que tudo adormeceu novamente, os homens voltaram para
suas prisões e alheamentos. E eu aqui esperando a oportunidade para acordar
Copacabana mais uma vez...
Reginaldo
Bastos
Nenhum comentário:
Postar um comentário