terça-feira, 8 de novembro de 2011

O DIA EM QUE UM GALO ACORDOU A ZONA SUL


O DIA EM QUE UM GALO ACORDOU A ZONA SUL

- Assim não dá! (reclamava o vizinho de cima)
- Eu não aguento mais! ( o vizinho do lado)
- Não se pode dormir com essa cantoria!
- Um dia ainda faço uma canja desse galo!
Os moradores do bairro nobre fizeram uma reunião e encaminharam um ofício ao administrador da região. Foi assim que surgiu a infeliz idéia:
- Vamos colocar em votação!
- Mas como em votação? (retrucava o administrador.
- Um plebiscito para decidir se o galo fica ou não fica. (disse um bigodudo com cara de classe média decadente).
Eu agora me sentia um réu, um verdadeiro galo-quase-homem, satisfazendo as vontades e os caprichos dos humanos (humanos?). É... me pegaram para bode, bode não, galo expiatório, aonde a consciência pesada do homem iria tranquilizar-se com a minha saída. O homem tem complexo de galo, vive em poleiros, fechados em sua prisão interior.
Ser um galo que por força do destino, foi cair numa promoção de uma grande loja da cidade, quando ainda era um simples pintinho, pensam que sou privilegiado, mas nunca senti um pedaço de chão aonde as galinhas e galos normais brincam e ciscam. Um dia ouvi falar que os da minha espécie adoravam uma minhoquinha, tive uma sensação de vômito. Fui criado dentro dos padrões de anormalidade humana e hoje me desprezam, como desprezam os outros humanos deitados nas calçadas.
- Podemos resolver o problema, (dizia uma representante de uma tal sociedade protetora dos animais) é só arrumar uma caixa de papelão grande, deixar o galo lá dentro e só tirá-lo a tarde. Então ele cantaria sem acordar ninguém.
Pronto, fui condenado, os meus instintos foram condicionados a uma caixa de papelão...
- Não, isso, não! Ele vai ficar triste e sozinho... (essa é a minha dona, uma menina de 10 anos, muito inteligente).
- Que isso, minha filha, galo não tem sentimentos.
Outra vez me veio a sensação de estar me tornando um humano....
A votação parecia interminável, faixas e cartazes agitavam o movimento. Algumas faixas diziam: “QUEREMOS OUVIR O CANTAR DO GALO!”, outras “FORA O GALO, VIVA A CANJA!”.
Um político fez um discurso explicando porque um cidadão deveria ter seu sono garantido e iria levar a proposta para o Congresso Nacional.
Fui defendido por alguns naturalistas, mas as crianças militaram a meu favor com mais garra, saíram em passeata, pararam o trânsito da Av. Nossa Senhora de Copacabana.
Depois de um dia inteiro de agitação chegaram ao final da votação, enfim, a conclusão que eu deveria ficar. Já estava cansado e me preparava  psicologicamente para o pior....
Agora olhando da janela, vejo que tudo adormeceu novamente, os homens voltaram para suas prisões e alheamentos. E eu aqui esperando a oportunidade para acordar Copacabana mais uma vez...

Reginaldo Bastos

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