segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

GRADES

 

Grades

Olhando dentro de mim

Observo a prisão que me compõe.

O sonho livre que me resta me deixa aflito,

Nossos sentimentos são grades, que desalinham a alma.

Cultuam a liberdade em nós,

Progride e regridem em nós,

Para que o sonho possa compor um céu azul e amplo

Fazendo ter sentido o voo dessa liberdade em mim,

Em nós...

quarta-feira, 6 de julho de 2022

UM POEMA DE AMOR

 


APESAR DA INEXISTÊNCIA NA EXISTÊNCIA DA MORTE

AMO O VERBO VIVER

QUE ME LEVA DO SIMPLES AO COMPLICADO

VALENDO APENA RESPIRAR AS NOSSAS ALEGRIAS E ANGUSTIAS.

REGINALDO BASTOS

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

MATEMÁTICA DA AMIZADE

 

 Ao amigo Ledo Vaccaro

 

Exatamente uma linguagem lógica

Que se reinventa e reproduz a realidade cartesiana,

Insana, complexa, simples, poderá ser o fim em si?

Sendo um sujeito o próprio sujeito de sua história,

Não poderia ser o fim em si, se esse sujeito é linguagem

Construída no entendimento do mundo.

Se uma parte pode definir a outra parte

Como uma bissetriz dividindo um Ângulo,

Buscamos a felicidade resolvendo equações e ultrapassando obstáculos.

Na porcentagem que nos cabe construímos na geometria

As formas que nos movem em direção reta ou curva

 Que tangenciam na confluência do inesperado,

Por isso, somos linguagem que as vezes andando em círculos,

Nos construímos propagando na vida o nosso grito.

 

Reginaldo Bastos

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Transparência

Transparência
Ocultar o que é óbvio é tentar ignorar a verdade,
A consciência de não se ocultar,
Virtude de quem é verídico com si mesmo,
Sem exageros, sem enganos, só os possíveis dentro da relação humana.
Diáfano no que consiste tez na existência,
Nitidez na essência,
Fluidez de pensamentos límpidos,
Coerência, clareza que evidenciam o estar no mundo.
Transparência  que não se transfigura em imagens distorcidas,
Que faz da ética uma prática permanente,
Que transforma o  champanha  em água para matar a sede,
Que acaba com as benesses de alguns sem brilho
Que fazem do mundo uma coisa pior.
Transparência ...
Limpidez ...
Pureza ...
Lucidez ...
Um mundo justo ....
Reginaldo Bastos 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

PROVISÓRIO


Ser a vida precária,
Na efemeridade das coisas que temos,
Sentimentos transitórios...
Uma flor temporária em seu nascer
Na imagem que descortina na retina do olhar.
Na dor que finda,
No amor que de passagem reflete o interior pro mundo.
Na ânsia de olhar antes que acabe,
No desejo intrínseco de um ser provisório,
Que chora, sorrir, grita, geme, se assusta com o que é simples demais...
Provisoriamente cantaremos o que estiver próximo,
Porque o que permanece é a essência até o infinito precário da existência.
Reginaldo Bastos  

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

SIMPLESMENTE


Cada momento que o sol brilha
Um novo aparece,
Luz fonte de energia que transforma em cada verde uma nova vida.
Pássaros gorjeiam, o verde ressurge, a vida se mostra latente.
Em cada gota de orvalho habitam seres invisíveis,
Que brilham nas folhas.
O ar, oxigênio, existência pura e segura,
A flor se abre, exala perfume e espalha beleza.
No mar os peixes, corais  e diversidade que alimentam o corpo e alma.
Florestas que abrigam vidas inteiras sem fragmentos obscuros.
Simplesmente é puro, ingênuo, grande e sereno, nosso mundo...
Reginaldo Bastos


quinta-feira, 11 de julho de 2019

SUBLIMAÇÃO II


Purificar para ficar belo aos olhos,
Depurar, refinar o que há dentro de nós,
Exaltar o insano viver livre,
Acrisolamento da vida no tempo.
Refinando o atrito para renovar a criação,
Que por ser imperfeita precisa constantemente ser nova,
Renova, renasce, revive para  ser gostosa, suave, refrescante, calmante e sutil
Para se tornar a realidade de ser sublimação.

Reginaldo Bastos


sexta-feira, 5 de julho de 2019

SONHO (PROVISÓRIO)


Quando povoa o sonho de conquistas
Acordamos sólidos e delicados como aroma no vento.
Quando olhamos para trás e não olhamos mais o sonho
É porque a esperança se transfigurou
E a nossa vontade de se alienar aumenta como se fosse fácil apagar
Do sangue o sangue deixando no caminho.
Perdas ... descobrimos que na existência há várias perdas importantes,
Mas a vitória chega com uma voz : “Pai, te amo.”
A vontade volta e passamos a acreditar que nada foi em vão,
Mesmo as perdas fizeram parte da construção
Sabemos que o caminho foi difícil, mas valeu a pena....

terça-feira, 4 de junho de 2019

SER


Como ser o que pode ser
Aquilo que desconhece o que será.
Ser infinito contrário a todos os sentimentos,
Ser precário no contentamento ínfimo,
Ser  um ser estranho humano,
Incoerente, coerente, profano, sagrado....
Ser puro, maculado em tudo para emergir pessoa.
Emoções confusas, turbulentas em tempestades íntimas
Que angustiam a existência ...
Existência essa que por ser delicada foge, de repente, aos olhos,
Voa como a espuma dissipando no ar.
Ser, poderíamos só ser,
Num simples estar no mundo....
(Reginaldo Bastos)   

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

ATALHOS

Nos caminhos encontramos atalhos
que nos levam a um encontro inesperado,
Numa vida em ânsias partidas, retalhos…
Em que cada pedaço fica transfigurado.
Quando os caminhos param na encruzilhada
Ficamos perdidos na escolha a seguir,
Na poeira do asfalto conduzindo a madrugada,
Tendo a certeza da saída conseguir.
Porém se os atalhos não encurtam o tempo,
Retornar ao caminho é a melhor opção.
Para que ficar torturando o pensamento
Se todos os caminhos podem chegar ao coração.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

A partir de hoje


A PARTIR DE HOJE
A partir de hoje,
Não cantaremos o impossível.
Não deixaremos a voz suspensa,
Não falaremos em vão coisas sem importância,
Não repartiremos o sofrimento.
Não beberemos sozinhos e nem gritaremos no vazio.
A partir de hoje,
Buscaremos os sonhos realizáveis,
Faremos músicas suaves,
Pularemos os obstáculos imaginários e reais,
Tomaremos os remédios na hora marcada,
Beberemos com amigos,
Viveremos mais...
A partir de hoje deverá ser amanhã
E amanhã será um novo dia.

Reginaldo Bastos

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019


SENTIMENTOS
Amor, paixão, emoção
Desejo, vontade, anseio
Calafrio, quente frio
Alegria, esperança coragem.
Ódio, tristeza raiva,
Nojo, fúria briga,
Tremor, covardia hipocrisia ...
O pior é a indiferença
Que é a pura falta de sentimentos
E isso não dá para reverter...
Reginaldo Bastos

COM A MORTE


COM A MORTE
Deixando uma brisa no ar,
Em vão o sol canta e encanta,
Se há nuvem não importa,
Porque o sol continua e a lua também.
Fica em volta o cheiro,
A árvore,
A sombra,
A saudade.
Deixando um amor,
Que valeu a pena viver,
Se há tristeza não importa,
Porque o amor continua e a vida.
Deixando um choro no ar,
Porque há saudade,
Se há falta e saudade é porque valeu a pena.
Ter importância, ter passado ocupando espaços,
É porque se deixou uma essência solta que invade mesmo na ausência.
Reginaldo Bastos

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

DESCULPAS


Desculpas
O que me faz pedir desculpas
São os erros que cometi contra a vontade
Contra a minha fé, contra meus anseios culturais.
Sem noção seriam erros?
O que me faz pedir desculpas
São as pretensas palavras que porventura, mal entendidas,
Ofenderam alguém...
São apenas palavras que jogadas ao vento
Causando tanta turbulência...
O que me faz pedir desculpas
É esse medo de ferir, me ferindo, para não perder...
Mas o que se perde é que na realidade nunca se achou.
O que me faz pedir desculpas
É essa autocobrança que não me deixa dormir,
Que atormenta meus sentimentos e minha existência incompleta.
O que me faz pedir desculpas
São minhas frases inacabadas, meus sonhos irrealizáveis...
Meus tiques nervosos, minha ausência, minha incoerência.
O que me faz pedir desculpas
É a minha inércia, a minha indisposição para brigas,
Minha indiferença para o que sempre será obvio e imutável,
O que me faz pedir desculpas
Nem  sempre está em mim, está na imposição de um mundo injusto,
De donos da verdade, de pressupostos senhores da vida.

Reginaldo Bastos

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

PERDAS

(Minha homenagem a irmã caçula, mais uma perda na minha vida)
Viver é aprender a conviver com perdas.
Mal amanhece e perdemos,
Constituição dos sonhos que povoam nossa emoção.
Nas perdas construimos a nossa história,
Compomos lembranças alegres e tristes.
Nas perdas nos dividimos,
Nos erguemos naquilo que somos.
Perder é certo e concreto,
Ganhar é um incerto sonho.
E assim coberto de incertezas
Caminhamos deixando uma parte de nós
Em cada trecho que passamos.

Reginaldo Bastos

sábado, 7 de setembro de 2013

saudade do pai

Tomo a liberdade de colocar em meu blog uma música de João Nogueira, pois me deixou sem o que fazer, queria fazer uma poesia para o meu pai, mas ele (João) fez primeiro.jm
PAI, quero ser para os meus filhos só um pedaço do que o senhor foi para mim.  Não existe como apagar a saudade, porém existe o renascer, o construir, o viver, o aprender sempre....
ALÉM DO ESPELHO

Quando eu olho meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar do meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho o olhar de um filho meu

A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor do meu pai não se perdeu
Só de olhar seu olhar eu sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora num cortejo
E no espelho eu chorei porque doeu
Só que vendo meu filho agora eu vejo
Que ele é o espelho do espelho que sou eu

A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos tem qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão do meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se o meu pai foi espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu

A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

E o meu medo maior é o espelho se quebrar
Meu medo maior é o espelho se quebrar



Link: http://www.vagalume.com.br/joao-nogueira/alem-do-espelho.html#ixzz2eFoqOWDH

sábado, 17 de agosto de 2013

FILHOS

Hoje acordei pensado na vida,
vi o sol, 
vi a nuvem
vi a lua.
Hoje busquei o reflexo
da luz,
do olhar,
 de mim.
Hoje não sei o que aconteceu,
mas senti saudade.
Saudade de jogar bola,
saudade de contar história,
de cantar, de gritar,
de brigar, 
de sonhar...
Hoje e sempre sei que sem meus filhos
a minha história não existiria.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

POESIA TRÊS ANOS (para ANA CRISTINA)

Três anos (para Ana Cristina)

Busco em mim
Busco em você
Busco em nós.
Um mundo de paz
Um mundo de vida
Um mundo de amor.
Cada dia uma semente
Cada dia um crescimentoo
Cada ano uma flor e fruto
Nosso amor fruto, flor, amor...
Três anos....
Construção, tijolo por tijolo...
Compreensão....
Puramente amor...

Reginaldo Bastos

domingo, 11 de novembro de 2012

poesianoar: A CASA DE TIJOLO

poesianoar: A CASA DE TIJOLO: A casa de tijolo é um conto que um dia pensei em transformar e romance, mas talvez a preguiça, ou talvez a falta de tempo. Apresento a você...

domingo, 4 de novembro de 2012

A CASA DE TIJOLO

A casa de tijolo é um conto que um dia pensei em transformar em romance, mas talvez a preguiça, ou  a falta de tempo... Apresento a vocês para que vocês, façam as suas críticas. 

A Casa de Tijolo

           O morro acordou cedo com os gritos de dona Zuleica. As vizinhas abriram portas e janelas, os cochichos fervilhavam nos becos, as crianças saíram com bolas e piões, se divertiam na madrugada. Dona Zuleica gritava:
                      - Acorda ome de Deus! Tá naceno!
                       Honorato sonolento com a cara amassada, resmungava:
                      - Naceno o quê mulé? Tá maluca, que horas são? Já fez o café?
                      - Que café! Que horas! Teu filho tá mexenu que nem doido, daqui a pouco ele pula pra fora!
                         Honorato botou a bermuda e uma camisa, gargarejou uma caneca de água e cuspiu no chão, pegou a mulher pelo braço e saiu aflito. Quando os dois apareceram na porta, as vizinhas puderam matar a curiosidade.
                       -Pensei que o Norato tava matanu a Zuleica.....
                       - Eu também, menina....
                       - Mulé fraca, escandalosa, eu tive seis filho e não fiz nem a metade do que ela está fazendo , fui praticamente sozinha...
                       - As mulé são diferente...
                        - Que nada ela é fraca mermu, quando eu tava barriguda, lavava roupa pra fora e cuidava das criança... se aquienta capeta! Tu não tá veno que tô conversano?
                        - Mãeinha eu quero cumê, tô cum fome!
                        - Descurpa dona Cidinha, esses meninos so pensa em cumê.
                        - Que isso Terezinha, se esqueceu que eu tenho seis, sei como é isso...
                         Honorato apoiando a mulher começava a descer as escadas do Morro, os gritos aumentavam, e as mulheres iam atrás dando palpites.
                          - Respira fundo, desce devagar...
                          - Por que ele não pega ela no colo?
                          - Olha esse degrau escorrega...
                          - Eu acho que ela não vai aguentar descer não.
                          - Vira essa boca pra lá, mulé fofoqueira! Vai agorar os outro! - Honorato falou meio tonto com tanto falatório.
                           - Aaaaaaaaaaaaaai! Num guento mais! Dói muito, pára um pouco!
                            - Calma, calma, mulé já estamos quase chegano.
                            - Chegano que nada, ainda falta mais da metade do morro pra descer
                            - Cala aboca, dona Zulmira!
                            - Quem é você pra me mandar calar a boca?! Seu....Se....
                            - Vamu ter paciença, droga! Afinal é o meu filho que está naceno!
                            Desciam o morro como uma procissão nas festas de santo. As dores aumentavam, os gritos ficaram mais fortes e o desespero de Honorato era pior, não sabia o que fazer nessas horas, nunca foi parteiro, era peão de obra, cavava chão, fazia massa de cimento, nivelava parede, mas parto, isso não, ele não saberia  nem amparar com aquelas mãos grossas.
                             - É agora! Não dá tempo de decê mais, aaai! Hum, hum, ....
Os gritos e gemidos de Zuleica fez  Honorato parar no boteco de seu Malaquias e escorou a mulher no balcão. Tonto sem saber o que fazer, gritou:
- Tem parteira aqui?
- Ora, tu tá maluco, isso aqui é botequim, o que eu sei fazer, e faço bem, é servir cachaça! Respondeu Seu Malaquias indignado.
- Carma muzêfio, vovó chegou  conta pra véia o que acontece...
                               Salvação, vovó Eulália, mãe de santo e curandeira, tinha chegado com  seu cachimbo dando baforadas para os lados e benzendo tudo.
- Sua bença vó Eulália, é que  a Zuleica tá buchuda e acho que  é pra hoje. - disse Honorato aliviado com a presença da mãe de santo.            
- Vamu ver muzêfio, bota ela deitada naquela mesa...
- Mas é a mesa de sinuca! Interviu o portuga.
- E daí ? Não é mesa? Larga de ser desumano, seu galego duma figa, se não eu boto os santos pra cima de vosmercê.
 - Tá bem, mas vamos forrar a mesa, por favor...
 - Honorato, se mexe ! Pegá o jorná e pano e cubra mesa. Rápido, ome de Deus, se não seu fio nasce aqui no chão de cabeça pra baixo.
- Sim senhora, sim senhora. - Respondia honorato meio tonto, sem saber pra onde ir.
A mesa estava forrada e Zuleica deitada, gemia, chorava, o desespero da mulher parecia interminável. O boteco enchia de gente, agora eram homens, mulheres e crianças, todos olhando e comentando . Seu Malaquias começou a vender as primeiras cervejas e doses de cachaça. O português já não chorava pela mesa.
- Ô portuga, tem uns tira-gosto aí?
- Bota uma cerva bem gelada, porque a gente só sai daqui quando o moleque chegar.
- Esse vai ser dos bão já nasceu dentro do botequim.
- Calma que já vou atender todo mundo, não precisa gritar.
- Seu Malaquias, vovó tá pedindo um balde de água quente.
- Água quente pra quê?
- Sei lá. Acho que já vai nascer, ela tá pedindo, anda logo...
- Num tem não. Leva essa garrafa de cana, essa cachaça é mais forte do que alcu, eu uso, as vezes, para limpar o balcão.
Vovó Eulália pegou a garrafa , tirou a rolha e tomou um gole, cuspiu grosso e fez cara feia dizendo:
- Essa serve....- Lavou a mão com a cachaça e botou a faca de molho.
Honorato suava frio, estava estampado em sua cara uma mistura de medo e alegria. Os gritos de Zuleica ecoavam infinitamente, os risos, a mesa de sinuca, seu Malaquias, as crianças, o Morro, o chão, a mesa de sinuca...
A vontade de chorar -  Homem não chora! – e o falatório não o despertava, o olhar era vago, perdido, profundamente perdido dentro de si. Caminhou pesado até o balcão e com uma voz rosnada e pressa pediu uma cachaça, bebeu como se fosse água, sem fazer cara feia, não lembrou do santo, queria desatar o nó que prendia a voz e o peito.
- Viva o papai!
- É isso aí, Honorato, tiro certeiro!
- Vamos fazer uma aposta? Uma caixa de cerveja como vai ser macho.
- Eu topo!
- Bota mais uma, seu Malaquias. Disse Honorato parecendo não escutar os gritos a sua volta.
- Que horas são? Quatro e meia da madruga.
Foi o suficiente para acordar Honorato, agora se repetia em sua cabeça aquela resposta, “quatro e meia, quatro e meia, quatro e meia...” Um grito ecoou forte, mais forte que todos os outros, uma gargalhada...
- Eparrê, minha mãe...
Logo atrás um choro de criança invadia o boteco, as mulheres corriam para pegar panos, os homens da aposta faziam fila para ver o sexo da criança.
- Ganhei, ganhei, é macho!
- Bota a caixa aí, seu portuga! Vamu bebê até acabar!
Batia em Honorato um orgulho de pai, uma satisfação, um medo, um orgulho do primeiro filho, não sabia se ficava encostado no balcão ou se saía correndo, mas veio lembrança o trabalho. O trabalho já estava atrasado precisava correr.
- Dona Zulmira, avise a Zuleica que eu tenho que ir pro trabalho, dê um beijo nela por mim,  quebra esse galho?
-Tá tudo bem, cumpadre, vai. Pode deixá por minha conta.
Honorato descia o morro correndo e o choro do garoto parecia que o seguia. Aumentava a aflição, o medo, o orgulho...
- Bom dia, seu Honorato, atrasado , heim!...
- Sim, sim senhor... é que...
- Não tem esse papo não, ta atrasado e vai ser descontado o domingo!
- Só atrasei um hora e meia, eu tenho motivo justo. A minha mulé teve um garoto...
- Aaaah! Sua mulher tem filho e você é quem fica de resguardo, né?
- Não, senhor...
Honorato foi interrompido bruscamente, não teve direito a defesa, engoliu  seco e pegou na enxada. Um pensamento lhe passava e era a vontade de ter dado um soco na cara do encarregado, mas o choro da criança ainda era forte, parecia que estava ali no carrinho-de-mão. Chegou a planejar um acidente, “deixaria cair um tijolo na cabeça do encarregado, na hora que ele passasse “, mas não agora ele era pai, tinha que pensar na família. Que nome daria para o menino?
- Que pai desalmado, deixando a mulé e o filho que acaba de nascer para ir trabalhar.
- É mesmo Clotilde, como essa menina sofre muito, tem mais,dizem que ela até já apanhou dele.
Já no botequim o comentário era geral, todos bebiam e conversavam sobre o assunto.
- Não gente, me deixe em paz! Norato so tem dois mês de firma, se faltar pode perder o emprego. Dizia Zuleica.
- Cumadre não isquenta a cabeça com essas fofoqueiras! Elas falam de todo mundo mermu. Dizia Zulmira tentando acalmar a amiga.
- deixe de conversa e me arrume um galho de arruda!
- Pra quê, Vó Zulmira?
- Larga de ser burra mezefia, pra dá uns passe no garoto.
- Não, me tire daqui! Eu não aguentu mais, quero ir pra minha casa!
Zuleica não suportava mais o cheiro de cachaça e fumaça que começava a lhe dar náuseas, o vômito lhe subia a boca, precisa sair dali.quatro homens dois pelas pernas e dois pelos braços, carregando-a para o barraco. A criança chorava no colo de Zulmira que ia seguindo mais atrás.
-Que isso homem, Você tá no mundo da luz? O encarregado ta olhando pra gente.
- Que que eu fiz? Você ta entornando o cimento fora do carrinho e essa massa ta aguada.
- Desculpa,é que meu filho nasceu e eu tava pensando num nome para ele.
-Tudo bem, mais se controle. Depois você paga o mijo do neném e agente conversa. Presta atenção no serviço, senão você vai acabar que nem o Zeca, que foi mandado embora porque disperdiçou  um saco de cimento.
 - É, cê tem razão, não pode acontecer isso agora comigo.
Bateu a hora do almoço, mas Honorato não sentia fome, também na correria esqueceu de aprontar a marmita. Alguns amigos lhe ofereceram um pouco de comida, mas o nó na garganta era forte e não o deixava comer.
- Não to com fome, valeu gente, não to com fome mermu. Brigadu.
Que nome daria a uma criança que era seu sangue, sua carne, a continuidade da sua geração. Um olhar vago em direção ao monte de areia lavada.
No caminho para casa Honorato sentia a ambigüidade de ser pai, um sentimento análogo, diferente de si mesmo. Alheio aos transportes que passavam resolveu ir a pé, mas era muito longe, talvez  três ou quatro horas de caminhada dura, poderia pensar, ver as pessoas. Ver as pessoas, essa vontade nunca havia passado por ele, vivia calado não era de turma, tinha três únicos amigos desde a infância, João Primo, Zé da Pipa e o compadre Aluísio Valente, os outros ele considerava conhecidos e não dava para se abrir.
Honorato pára de repente, os olhos começaram a brilhar, via algo estranho, sentiu repugnância, nojo. Pessoas debruçadas nos latões de lixo de um grande mercado catando os restos de comida. Comiam com voracidade e guardavam as sobras num saco  plástico. Começou a ver a si próprio disputando um pedaço de carne, sentia calafrio, queria sair dali.
- Disconjuro...Credo cruz...trabalho, mi arrebento, mas filho meu jamais vai comer resto dos outros...Isso não, meu Deus..
Honorato não resistiu e pegou um ônibus para casa.
Chegou no pé do morro hesitou por alguns instantes antes de subir, olhava para cima, nunca havia percebido que o morro era tão feio e só havia barracos de tábuas e zinco, crianças descalças e sujas, aquilo era o seu mundo, sempre esteve ali, desde que nasceu, mas não imaginava que um dia iria sentir o morro pesando no seu peito. Honorato sentou na escada, abaixou a cabeça entre as pernas, colocou as mãos por cima,como se estivesse forçando a cabeça para baixo.
- Qui é isso ome?
Não ouviu, as lágrimas surgiram, mas homem duro e calejado não tem o direito de chorar.
- Fale ome de Deus! O qui ta acontecenu com você?
- Oi, cumpadi Aluísio, que bão encontrar você, tava precisanu...
- Tudo bem vamu subir e conversar um pouco.
Os dois pararam no Seu Malaquias.
- Ô portuga, bota duas do barril pra gente!
- Cumpadi de repente to sentindo que a vida pra mim nunca deu muito certo.
- Por que isso agora? Você deveria ta feliz ...
- Num sei, é um nó , um aperto aqui dentro.  Batia forte no peito e os olhos brilhavam outra vez..
Deixe disso, você agora é pai e seu filho é um moleque forte e sadio. Cê imaginou se ele nascesse doente ou igual ao filho do Augusto que é maluco de nascença?
- É...
- Então, home, deus sabe o que faz.
- É.... É... Não é bem isso...
- Então o qui é? Sabe que sou seu amigo, comigo ce pode contar.
- Eu não sei...
- Não sabe o que?
- Isso que ta acontecenu comigo, to venu coisa que sempre tiveram pertu de mim, mas antes não me pertubava.
É assim mermu. Tome essa pinga e vá para casa. Quem sabe cheganu lá e venu o garoto ce muda, né?
Honorato não respondeu, baixou a cabeça e continuou subindo até chegar a sua casa. Entrou. Zuleica dormia um sono profundo. Sentou-se perto da criança e copmeçou admirá-la, passou horas ali olhando, as vezes ria e falava sozinho.
- Humberto. É isso ai, cê vai se chamar Humberto de Sousa, nome pequeno para não ter trabalho de assinar. Eu sofro para assinar esse nome grande que meu pai me deu, Honorato Salustiano Ferreira de Sousa, às vezes demoro um tempão assinando. Ce não vai ter essa dificuldade.
De repente um sorriso de satisfação entrou no rosto de Honorato. Agora iria dormir.

Reginaldo Bastos

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Felicidade

Por que a felicidade incomoda?
Aos infelizes que, ao invés de buscar,
procuram inconformados não aceitar a dos outros.
Ser feliz é o objetivo, ou deveria ser, de todos
dentro de cada abstração.
Ser feliz é a grande procura
é a grande cura para todos os males...
Ser feliz é provar o doce,
aproveitar o sol e a chuva,
vivendo um amor intenso
sem interromper o caminho dos outros.
É não ser mesquinho,
É saber sorrir,
É não tentar ofuscar ninguém,
É saber que o amor fala por sí só
e que todos têm o mesmo direito.
Ser feliz para si e para o mundo
enxergando a vida com a liberdade
de se criar a cada dia algo novo.

Reginaldo Bastos

sexta-feira, 20 de julho de 2012

SAUDADE II

Uma canção pode ser feita para saudade,
Um grito pode ser dado para o amor
Um choro sentido no peito não tem idade
O tempo por trás dos  olhos esconde o pavor

Vida, caminhos, espinhos, vontade
carinhos, mãos dadas, toque, calor
Na boca o adeus esconde a verdade
Que outrora a paixão transformou-se em horror

Saudade simples palavra repetida na vida
No coração se esconde por vaidade
Cresce, cobre o corpo, abre uma ferida
Cicatriza no inverno da crueldade

O que fica é esse sabor amargo, saudade.

REGINALDO BASTOS

quarta-feira, 27 de junho de 2012

SER HUMANO

Ser Humano

Somos seres constituidos de abstrações,
Amor, alegria, tristeza,
Maldade, sutileza, pudor...
Somos seres abstratos,
Dignidade, beleza, emoção,
Coração, deslealdade, pureza,
Somos seres complexos,
Crença, raiva, devoção,
Hipocrisia, esperança, paixão.
Somos seres que na ambição da descoberta,
Lançamos sentimentos que se confundem no ar,
Lancamos gritos desconhecidos,
Forjamos dias intensos,
Construimos e destruimos.
Somos seres incertos,
Somos seres incompletos,
Somos, apenas, seres humanos....

Reginaldo Bastos

sábado, 5 de maio de 2012

FILHOS

Tê-los, não como propriedade,
mas como vida que se eterniza
num mundo em construção.
Saber da existência me fez mais humano,
mais capaz de transformar a pedra em flor.
Vivê-los em todos os momentos,
fez-me enxergar o mundo diferente,
sem preconceito, mas com medo.
Medo da fome, da miséria, da violência,
da morte.....
São fraquezas...
O positivo que acordei mais humano e vivo.
Meus filhos, quanto mais respiro,
mais os amo,
mais sinto vontade de estar na vida para escrever,
viver, até morrer...
Filhos ... tê-los foi meu resnacer
Foi a oportunidade que tive de ser criança outravez.

Reginaldo Bastos

ESSÊNCIA

TODO O AROMA
O VENTO CORRE
TODOS OS SENTIDOS EM NÓS
O MUNDO RECORRE
TODA A ÁGUA E FONTE
NA FRONTE ESCORRE
TODA A FLUIDEZ DESCENDO O MONTE
NO RUMO NORTE PERCORRE
TODO O NÉCTAR QUE SUGAMOS
EM NOSSA VIDA DE PORRE
TODO SANGUE VERMELHO
NA VEIA NÃO MORRE
TEU PERFUME FRAGRÂNCIA
QUE ME SOCORRE
TODOS OS SENTIDOS E SUA ESSÊNCIA
QUE ME INCORRE.

REGINALDO BASTOS

sábado, 24 de dezembro de 2011

UM MUNDO COMUM

MUNDO COMUM
Homens comuns, mulheres comuns, crianças comuns,
Um mundo comum onde não exista o abismo da intolerância,
Onde a construção seja de todos.
Um mundo comum onde as distâncias se encurtem,
As diferenças  existindo para um mundo igual.
Um mundo onde eu, tu e ele sejamos realmente nós.

Reginaldo Bastos

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O DIA EM QUE UM GALO ACORDOU A ZONA SUL


O DIA EM QUE UM GALO ACORDOU A ZONA SUL

- Assim não dá! (reclamava o vizinho de cima)
- Eu não aguento mais! ( o vizinho do lado)
- Não se pode dormir com essa cantoria!
- Um dia ainda faço uma canja desse galo!
Os moradores do bairro nobre fizeram uma reunião e encaminharam um ofício ao administrador da região. Foi assim que surgiu a infeliz idéia:
- Vamos colocar em votação!
- Mas como em votação? (retrucava o administrador.
- Um plebiscito para decidir se o galo fica ou não fica. (disse um bigodudo com cara de classe média decadente).
Eu agora me sentia um réu, um verdadeiro galo-quase-homem, satisfazendo as vontades e os caprichos dos humanos (humanos?). É... me pegaram para bode, bode não, galo expiatório, aonde a consciência pesada do homem iria tranquilizar-se com a minha saída. O homem tem complexo de galo, vive em poleiros, fechados em sua prisão interior.
Ser um galo que por força do destino, foi cair numa promoção de uma grande loja da cidade, quando ainda era um simples pintinho, pensam que sou privilegiado, mas nunca senti um pedaço de chão aonde as galinhas e galos normais brincam e ciscam. Um dia ouvi falar que os da minha espécie adoravam uma minhoquinha, tive uma sensação de vômito. Fui criado dentro dos padrões de anormalidade humana e hoje me desprezam, como desprezam os outros humanos deitados nas calçadas.
- Podemos resolver o problema, (dizia uma representante de uma tal sociedade protetora dos animais) é só arrumar uma caixa de papelão grande, deixar o galo lá dentro e só tirá-lo a tarde. Então ele cantaria sem acordar ninguém.
Pronto, fui condenado, os meus instintos foram condicionados a uma caixa de papelão...
- Não, isso, não! Ele vai ficar triste e sozinho... (essa é a minha dona, uma menina de 10 anos, muito inteligente).
- Que isso, minha filha, galo não tem sentimentos.
Outra vez me veio a sensação de estar me tornando um humano....
A votação parecia interminável, faixas e cartazes agitavam o movimento. Algumas faixas diziam: “QUEREMOS OUVIR O CANTAR DO GALO!”, outras “FORA O GALO, VIVA A CANJA!”.
Um político fez um discurso explicando porque um cidadão deveria ter seu sono garantido e iria levar a proposta para o Congresso Nacional.
Fui defendido por alguns naturalistas, mas as crianças militaram a meu favor com mais garra, saíram em passeata, pararam o trânsito da Av. Nossa Senhora de Copacabana.
Depois de um dia inteiro de agitação chegaram ao final da votação, enfim, a conclusão que eu deveria ficar. Já estava cansado e me preparava  psicologicamente para o pior....
Agora olhando da janela, vejo que tudo adormeceu novamente, os homens voltaram para suas prisões e alheamentos. E eu aqui esperando a oportunidade para acordar Copacabana mais uma vez...

Reginaldo Bastos

sábado, 8 de outubro de 2011

INFÂNCIA II

Havia árvores,
Vento soprava em moldes indistintos,
Correndo fatos
Pedaços...
Havia rios,
Peixes festas,
Peixes água
e gotas brincavam
trocando doces e salgadas,
bebiam...

Havia crianças,
Inocência sem explicações,
Bola,
Pipa,
Gude,
Amarelinha,
Carniça,
Choro e pirraça,
Havia Cosme e Damião,
Correria
cocada
saco de bala
carrinho
cartão...

Havia animais,
Cachorros totós,
gatos mimis
vacas malhadas,
galos cantores,
preás,
pombas!

Havia belezas,
jamelão e chineladas,
papai e mamãe beijando a febre.
Havia infância,
Havia árvores,
Havia homens sensíveis,
Havia paixão,
Havia pureza,
Havia a certeza de ser humano...

Reginaldo Bastos

Nudez

Que seja espelho transparente
Na textura da linguagem
Perfeita, desvairada, incoerente,
Diáfana, translúcida imagem.

Que seja bela e despida,
No toque de um ser invisível,
do poeta, do verso da rima partida,
Da palavra, do traço incorrigível.

A roupagem não atrapalha a nudez,
forma-se um explícita forma,
Na clareza simples da tez.

Não seria tornar deusa a norma,
Mas retirar de cima a palidez
Do que sempre foi óbvio.

Reginaldo Bastos


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CRIANÇAS

Corre uma brisa
e as crianças não sentem,
então nada corre.
Corre todo o vento
e os homens sentem e sentam...
Ainda bem que as crianças burlam toda essa razão.

Reginaldo Bastos