A casa de tijolo é um conto que um dia pensei em transformar em romance, mas talvez a preguiça, ou a falta de tempo... Apresento a vocês para que vocês, façam as suas críticas.
A Casa de Tijolo
O morro acordou cedo com os gritos de dona Zuleica. As vizinhas abriram portas e janelas, os cochichos fervilhavam nos becos, as crianças saíram com bolas e piões, se divertiam na madrugada. Dona Zuleica gritava:
- Acorda ome de Deus! Tá naceno!
Honorato sonolento com a cara amassada, resmungava:
- Naceno o quê mulé? Tá maluca, que horas são? Já fez o café?
- Que café! Que horas! Teu filho tá mexenu que nem doido, daqui a pouco ele pula pra fora!
Honorato botou a bermuda e uma camisa, gargarejou uma caneca de água e cuspiu no chão, pegou a mulher pelo braço e saiu aflito. Quando os dois apareceram na porta, as vizinhas puderam matar a curiosidade.
-Pensei que o Norato tava matanu a Zuleica.....
- Eu também, menina....
- Mulé fraca, escandalosa, eu tive seis filho e não fiz nem a metade do que ela está fazendo , fui praticamente sozinha...
- As mulé são diferente...
- Que nada ela é fraca mermu, quando eu tava barriguda, lavava roupa pra fora e cuidava das criança... se aquienta capeta! Tu não tá veno que tô conversano?
- Mãeinha eu quero cumê, tô cum fome!
- Descurpa dona Cidinha, esses meninos so pensa em cumê.
- Que isso Terezinha, se esqueceu que eu tenho seis, sei como é isso...
Honorato apoiando a mulher começava a descer as escadas do Morro, os gritos aumentavam, e as mulheres iam atrás dando palpites.
- Respira fundo, desce devagar...
- Por que ele não pega ela no colo?
- Olha esse degrau escorrega...
- Eu acho que ela não vai aguentar descer não.
- Vira essa boca pra lá, mulé fofoqueira! Vai agorar os outro! - Honorato falou meio tonto com tanto falatório.
- Aaaaaaaaaaaaaai! Num guento mais! Dói muito, pára um pouco!
- Calma, calma, mulé já estamos quase chegano.
- Chegano que nada, ainda falta mais da metade do morro pra descer
- Cala aboca, dona Zulmira!
- Quem é você pra me mandar calar a boca?! Seu....Se....
- Vamu ter paciença, droga! Afinal é o meu filho que está naceno!
Desciam o morro como uma procissão nas festas de santo. As dores aumentavam, os gritos ficaram mais fortes e o desespero de Honorato era pior, não sabia o que fazer nessas horas, nunca foi parteiro, era peão de obra, cavava chão, fazia massa de cimento, nivelava parede, mas parto, isso não, ele não saberia nem amparar com aquelas mãos grossas.
- É agora! Não dá tempo de decê mais, aaai! Hum, hum, ....
Os gritos e gemidos de Zuleica fez Honorato parar no boteco de seu Malaquias e escorou a mulher no balcão. Tonto sem saber o que fazer, gritou:
- Tem parteira aqui?
- Ora, tu tá maluco, isso aqui é botequim, o que eu sei fazer, e faço bem, é servir cachaça! Respondeu Seu Malaquias indignado.
- Carma muzêfio, vovó chegou conta pra véia o que acontece...
Salvação, vovó Eulália, mãe de santo e curandeira, tinha chegado com seu cachimbo dando baforadas para os lados e benzendo tudo.
- Sua bença vó Eulália, é que a Zuleica tá buchuda e acho que é pra hoje. - disse Honorato aliviado com a presença da mãe de santo.
- Vamu ver muzêfio, bota ela deitada naquela mesa...
- Mas é a mesa de sinuca! Interviu o portuga.
- E daí ? Não é mesa? Larga de ser desumano, seu galego duma figa, se não eu boto os santos pra cima de vosmercê.
- Tá bem, mas vamos forrar a mesa, por favor...
- Honorato, se mexe ! Pegá o jorná e pano e cubra mesa. Rápido, ome de Deus, se não seu fio nasce aqui no chão de cabeça pra baixo.
- Sim senhora, sim senhora. - Respondia honorato meio tonto, sem saber pra onde ir.
A mesa estava forrada e Zuleica deitada, gemia, chorava, o desespero da mulher parecia interminável. O boteco enchia de gente, agora eram homens, mulheres e crianças, todos olhando e comentando . Seu Malaquias começou a vender as primeiras cervejas e doses de cachaça. O português já não chorava pela mesa.
- Ô portuga, tem uns tira-gosto aí?
- Bota uma cerva bem gelada, porque a gente só sai daqui quando o moleque chegar.
- Esse vai ser dos bão já nasceu dentro do botequim.
- Calma que já vou atender todo mundo, não precisa gritar.
- Seu Malaquias, vovó tá pedindo um balde de água quente.
- Água quente pra quê?
- Sei lá. Acho que já vai nascer, ela tá pedindo, anda logo...
- Num tem não. Leva essa garrafa de cana, essa cachaça é mais forte do que alcu, eu uso, as vezes, para limpar o balcão.
Vovó Eulália pegou a garrafa , tirou a rolha e tomou um gole, cuspiu grosso e fez cara feia dizendo:
- Essa serve....- Lavou a mão com a cachaça e botou a faca de molho.
Honorato suava frio, estava estampado em sua cara uma mistura de medo e alegria. Os gritos de Zuleica ecoavam infinitamente, os risos, a mesa de sinuca, seu Malaquias, as crianças, o Morro, o chão, a mesa de sinuca...
A vontade de chorar - Homem não chora! – e o falatório não o despertava, o olhar era vago, perdido, profundamente perdido dentro de si. Caminhou pesado até o balcão e com uma voz rosnada e pressa pediu uma cachaça, bebeu como se fosse água, sem fazer cara feia, não lembrou do santo, queria desatar o nó que prendia a voz e o peito.
- Viva o papai!
- É isso aí, Honorato, tiro certeiro!
- Vamos fazer uma aposta? Uma caixa de cerveja como vai ser macho.
- Eu topo!
- Bota mais uma, seu Malaquias. Disse Honorato parecendo não escutar os gritos a sua volta.
- Que horas são? Quatro e meia da madruga.
Foi o suficiente para acordar Honorato, agora se repetia em sua cabeça aquela resposta, “quatro e meia, quatro e meia, quatro e meia...” Um grito ecoou forte, mais forte que todos os outros, uma gargalhada...
- Eparrê, minha mãe...
Logo atrás um choro de criança invadia o boteco, as mulheres corriam para pegar panos, os homens da aposta faziam fila para ver o sexo da criança.
- Ganhei, ganhei, é macho!
- Bota a caixa aí, seu portuga! Vamu bebê até acabar!
Batia em Honorato um orgulho de pai, uma satisfação, um medo, um orgulho do primeiro filho, não sabia se ficava encostado no balcão ou se saía correndo, mas veio lembrança o trabalho. O trabalho já estava atrasado precisava correr.
- Dona Zulmira, avise a Zuleica que eu tenho que ir pro trabalho, dê um beijo nela por mim, quebra esse galho?
-Tá tudo bem, cumpadre, vai. Pode deixá por minha conta.
Honorato descia o morro correndo e o choro do garoto parecia que o seguia. Aumentava a aflição, o medo, o orgulho...
- Bom dia, seu Honorato, atrasado , heim!...
- Sim, sim senhor... é que...
- Não tem esse papo não, ta atrasado e vai ser descontado o domingo!
- Só atrasei um hora e meia, eu tenho motivo justo. A minha mulé teve um garoto...
- Aaaah! Sua mulher tem filho e você é quem fica de resguardo, né?
- Não, senhor...
Honorato foi interrompido bruscamente, não teve direito a defesa, engoliu seco e pegou na enxada. Um pensamento lhe passava e era a vontade de ter dado um soco na cara do encarregado, mas o choro da criança ainda era forte, parecia que estava ali no carrinho-de-mão. Chegou a planejar um acidente, “deixaria cair um tijolo na cabeça do encarregado, na hora que ele passasse “, mas não agora ele era pai, tinha que pensar na família. Que nome daria para o menino?
- Que pai desalmado, deixando a mulé e o filho que acaba de nascer para ir trabalhar.
- É mesmo Clotilde, como essa menina sofre muito, tem mais,dizem que ela até já apanhou dele.
Já no botequim o comentário era geral, todos bebiam e conversavam sobre o assunto.
- Não gente, me deixe em paz! Norato so tem dois mês de firma, se faltar pode perder o emprego. Dizia Zuleica.
- Cumadre não isquenta a cabeça com essas fofoqueiras! Elas falam de todo mundo mermu. Dizia Zulmira tentando acalmar a amiga.
- deixe de conversa e me arrume um galho de arruda!
- Pra quê, Vó Zulmira?
- Larga de ser burra mezefia, pra dá uns passe no garoto.
- Não, me tire daqui! Eu não aguentu mais, quero ir pra minha casa!
Zuleica não suportava mais o cheiro de cachaça e fumaça que começava a lhe dar náuseas, o vômito lhe subia a boca, precisa sair dali.quatro homens dois pelas pernas e dois pelos braços, carregando-a para o barraco. A criança chorava no colo de Zulmira que ia seguindo mais atrás.
-Que isso homem, Você tá no mundo da luz? O encarregado ta olhando pra gente.
- Que que eu fiz? Você ta entornando o cimento fora do carrinho e essa massa ta aguada.
- Desculpa,é que meu filho nasceu e eu tava pensando num nome para ele.
-Tudo bem, mais se controle. Depois você paga o mijo do neném e agente conversa. Presta atenção no serviço, senão você vai acabar que nem o Zeca, que foi mandado embora porque disperdiçou um saco de cimento.
- É, cê tem razão, não pode acontecer isso agora comigo.
Bateu a hora do almoço, mas Honorato não sentia fome, também na correria esqueceu de aprontar a marmita. Alguns amigos lhe ofereceram um pouco de comida, mas o nó na garganta era forte e não o deixava comer.
- Não to com fome, valeu gente, não to com fome mermu. Brigadu.
Que nome daria a uma criança que era seu sangue, sua carne, a continuidade da sua geração. Um olhar vago em direção ao monte de areia lavada.
No caminho para casa Honorato sentia a ambigüidade de ser pai, um sentimento análogo, diferente de si mesmo. Alheio aos transportes que passavam resolveu ir a pé, mas era muito longe, talvez três ou quatro horas de caminhada dura, poderia pensar, ver as pessoas. Ver as pessoas, essa vontade nunca havia passado por ele, vivia calado não era de turma, tinha três únicos amigos desde a infância, João Primo, Zé da Pipa e o compadre Aluísio Valente, os outros ele considerava conhecidos e não dava para se abrir.
Honorato pára de repente, os olhos começaram a brilhar, via algo estranho, sentiu repugnância, nojo. Pessoas debruçadas nos latões de lixo de um grande mercado catando os restos de comida. Comiam com voracidade e guardavam as sobras num saco plástico. Começou a ver a si próprio disputando um pedaço de carne, sentia calafrio, queria sair dali.
- Disconjuro...Credo cruz...trabalho, mi arrebento, mas filho meu jamais vai comer resto dos outros...Isso não, meu Deus..
Honorato não resistiu e pegou um ônibus para casa.
Chegou no pé do morro hesitou por alguns instantes antes de subir, olhava para cima, nunca havia percebido que o morro era tão feio e só havia barracos de tábuas e zinco, crianças descalças e sujas, aquilo era o seu mundo, sempre esteve ali, desde que nasceu, mas não imaginava que um dia iria sentir o morro pesando no seu peito. Honorato sentou na escada, abaixou a cabeça entre as pernas, colocou as mãos por cima,como se estivesse forçando a cabeça para baixo.
- Qui é isso ome?
Não ouviu, as lágrimas surgiram, mas homem duro e calejado não tem o direito de chorar.
- Fale ome de Deus! O qui ta acontecenu com você?
- Oi, cumpadi Aluísio, que bão encontrar você, tava precisanu...
- Tudo bem vamu subir e conversar um pouco.
Os dois pararam no Seu Malaquias.
- Ô portuga, bota duas do barril pra gente!
- Cumpadi de repente to sentindo que a vida pra mim nunca deu muito certo.
- Por que isso agora? Você deveria ta feliz ...
- Num sei, é um nó , um aperto aqui dentro. Batia forte no peito e os olhos brilhavam outra vez..
Deixe disso, você agora é pai e seu filho é um moleque forte e sadio. Cê imaginou se ele nascesse doente ou igual ao filho do Augusto que é maluco de nascença?
- É...
- Então, home, deus sabe o que faz.
- É.... É... Não é bem isso...
- Então o qui é? Sabe que sou seu amigo, comigo ce pode contar.
- Eu não sei...
- Não sabe o que?
- Isso que ta acontecenu comigo, to venu coisa que sempre tiveram pertu de mim, mas antes não me pertubava.
É assim mermu. Tome essa pinga e vá para casa. Quem sabe cheganu lá e venu o garoto ce muda, né?
Honorato não respondeu, baixou a cabeça e continuou subindo até chegar a sua casa. Entrou. Zuleica dormia um sono profundo. Sentou-se perto da criança e copmeçou admirá-la, passou horas ali olhando, as vezes ria e falava sozinho.
- Humberto. É isso ai, cê vai se chamar Humberto de Sousa, nome pequeno para não ter trabalho de assinar. Eu sofro para assinar esse nome grande que meu pai me deu, Honorato Salustiano Ferreira de Sousa, às vezes demoro um tempão assinando. Ce não vai ter essa dificuldade.
De repente um sorriso de satisfação entrou no rosto de Honorato. Agora iria dormir.
Reginaldo Bastos